sexta-feira, 8 de abril de 2011

Pausa - Mário Quintana

Literatura a arte das palavras

PAUSA
Mário Quitana
Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas,ou na leitura de minhas próprias coisa,surpreendo-me a indagar com que se parecem o óculos sobre a mesa.
Com algum insetos de grandes olhos e negras e longa pernas ou antenas?
Com algum ciclista tombado?
Não,nada disso me contente ainda.Com que se parecem mesmo?
E sinto que,enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema,a inquietação perdurará.
E,enquanto o meu Sancho Pança,cheio de si e de senso comum,declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa,além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa,são, de fato,um par de óculos sobre a mesa,fico a pensar qual dos dois-Dom quixote ou Sancho?-vive uma vida mais intensa e portanto mais verdadeira...
E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens,para terem mais vida,e da vida em poesia,para ser mais vivida.
Esse enigma,eu paso a ti,pobre leitor.
E agora?
Por enquanto,ante a atual insolubilidade da coisa,só me resta citar o terrível dilema de stechetti:
"Io sonno un poeta o sonno un imbecile?"
Alternativa,aliás,extensiva ao leitor de poesia...
A verdade é que a minha atroz funçao não é resolver e sim propor enigma,fazer o leitor pensar e não pensar por ele.
E dai?
-Mais o melhor -pondera-me,com a sua voz pausada,o meu Sancho Pança-,o melhor é repor depresa os óculos no nariz.

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